Música que cura

O homem relaciona-se com a música desde o início da história da humanidade. Sendo uma mistura de sons e silêncios – tal como a vida –, a música tornou-se linguagem universal, apresentando-se como manifestação cultural pelos quatro cantos do mundo e pelo tempo afora. Considerando isso, ousaria dizer que a música é essencial para o homem. Ela tem o poder de nos impactar profundamente, tendo efeitos sobre nosso corpo/mente. Emociona, mexe, chacoalha, acalma, agita, reverbera, faz pensar, sorrir, chorar. Acredito até que, por vezes, tem o poder de ir aonde a palavra não vai.

Aprendi que a palavra cura. Por isso, a terapia pode ser tão importante para nos ajudar a atravessar a existência. No entanto, ela não é uma panaceia que nos possa curar tudo. Há que se procurar algo que faça sentido, o que quer que seja. E a música é um desses sentidos poderosos que podem nos salvar. Quem nunca se deixou levar por uma canção e despertou mudado? Ou viajou no tempo, sentiu-se traduzido, sentiu que o corpo dançava sozinho? Quem nunca despedaçou-se a chorar (e depois sobreviveu), tudo no tempo de uma canção? É essa universalidade que faz da música uma das expressões artísticas mais íntimas a todos nós. Coisa de âmago, de alma.

O cinema nos oferece diversas histórias que ilustram o poder da música em nossas vidas. Gostaria de comentar sobre uma dessas histórias, que aparece no filme “Apenas uma vez” (que encontra-se, por sinal, na minha lista de favoritos). Neste filme, percebemos como a música ocupa um espaço primordial no nascimento do amor entre o casal protagonista, duas almas solitárias e infelizes, cada um por suas razões, que encontram na música o elo em comum que os aproxima para além das palavras que não conseguem dizer. Há um abismo na comunicação dos dois (inclusive de idiomas: ele é irlandês e ela, tcheca), que só pôde ser transposto pela música. O amor que brota ali é refletido na música (e apenas na música): não se beijam em momento algum ao longo do filme. A força do que se vê na tela é tão grande que não me surpreendeu saber que os atores se apaixonaram na vida real, iniciando um relacionamento durante as filmagens. Quem assistir ao filme certamente irá perceber a potência desse vínculo musical. Penso que “Apenas uma vez” ilustra bem a forma como essa linguagem nos atravessa e nos extrapola, nos transforma, nos invade e fim.

Sou de Pernambuco, sou o leão do norte; eu sou a mosca da sopa; eu sou amor da cabeça aos pés; I am the walrus; acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto; eu sou a diva que você quer copiar; (Taciana Halliday é psicóloga)