Sweet Toronto

Aqui é o espaço para cinema e música. Especialmente documentário e rock n’ roll. Para estrear, simbora falar de Sweet Toronto, um doc que junta algumas lendas do rock n’ roll e um dos grandes realizadores do chamado Cinema Direto. Tô falando de Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Bo Diddley e da atração principal: John Lennon and The Plastic Ono Band, que incluía Eric Clapton na guitarra e Yoko Ono nos vocais. Tô falando também de Donn Alan (D.A.) Pennebaker, um cara que é “um dos grandes” quando o assunto é rockumentary. Pennebaker dirige a película que conta também com Richard Leacock na equipe (outro figurão do Cinema Direto), atuando como operador de câmera.

O filme registra o Toronto Rock and Roll Revival Festival realizado em 1969 na cidade de Toronto, Canadá. O evento reuniu grandes nomes do rock dos anos 1950 e 1960 e tinha como mote a mobilização pela paz. O lema hippie “paz e amor” ressoava naquela época, e cresciam os protestos contra a Guerra do Vietnã. John Lennon e sua banda tocaram a música Give Peace a Chance (Dê uma chance a paz), canção composta por Lennon que se transformou em um hino pacifista.

Na sequência de abertura, vemos alguns segundos do show de Bo Diddley. Dois ou três acordes depois, Pennebaker nos leva para um passeio na estrada até chegar ao local do evento. Bicho, o rolê é na garupa de uma motoca, só pra ficar numa trip estradeira sessentista. Lennon descendo da limusine, Berry empunhado a guitarra e Lewis fumando o charuto, voltamos ao palco com um ângulo de câmera meio estranho: os pés dançantes de Bo Diddley com a plateia de fundo. As tomadas não convencionais são parte da proposta estética do Cinema Direto e estará presente ao longo do doc.

A próxima apresentação é de Jerry Lee Lewis esculachando no piano com categoria e mandando ver em Hound Dog, rockão que dá vontade de dançar no estilo daqueles bailinhos dos anos 50. Em seguida entra em cena o genial e saudoso Chuck Berry com Johnny B. Goode, clássico absoluto do rock n’ roll, Ele, ou a música, tá um pouco desacelerado(a) em um rotação levemente sossegada, todavia isso não compromete o som, que fica massa do mesmo jeito.A apresentação seguinte é do grande showman dos primórdios do rock, o músico Little Richard, mais um clássico: Lucille.

O som dos aplausos anuncia John Lennon and The Plastic Ono Band. É a atração principal do festival e destaque do filme, sendo o único artista a ter mais de uma música exibida. Apesar de curtir o som de Lennon mais do que os outros músicos que aparecem no documentário (John é meu beatle favorito), faço uma ressalva ao tempo de exposição dedicado a cada artista. John Lennon and The Plastic Ono Band tem o dobro do tempo de todos ou outros somados. Seria melhor equilibrar mais, mas não dá pra reclamar do set list, só tem música boa: covers de clássicos do rock (Blue Suede Shoes), Beatles (Yer Blues) e carreira solo (Cold Turkey). Exceção feita ao encerramento, quando Yoko assume os vocais e manda ver uma viagem meio vanguardista que eu não entendi muito bem.

A estranheza causada no final do filme pela performance vocal virtuosa e estranhíssima de Yoko Ono somada a um enquadramento das nádegas (!) de Lennon pode ser comparada ao estranhamento causado pelo grupo de cineastas do Cinema Direto aos documentaristas tradicionais. O show de John Lennon é permeado de diversas peculiaridades, quase bizarras, como no enquadramento “desleixado” para o esquisito e recorrente plano de contraplonge em que Lennon exibe sua volumosa barba e longos cabelos, sinônimos da rebeldia da contracultura que causou aversão aos conservadores no final dos anos 1960 e início dos 1970.

O Cinema Direto (ou Cinema Verdade, dependendo do autor) é um rótulo usado para se referir a uma nova geração de documentaristas que começou a produzir filmes no finalzinho dos anos 50 e que se distanciavam da linguagem mais tradicional do documentário clássico. Surgiram grupos de destaque principalmente nos Estados Unidos e na França. Traziam inovações estéticas, influenciados pelos documentários feitos sobre a Segunda Guerra Mundial e de filmes feitos de forma amadora. Novidade também na forma de pensar a produção do documentário e a participação do realizador no processo de filmagem.

Havia algumas divergências sobre o papel do diretor no filme e sobre o procedimento de filmagem, mas em comum existia o desejo de inovação, auxiliado pelos equipamentos portáteis que começavam a ser utilizados nas produções cinematográficas. As inovações tecnológicas que foram incorporadas às produções foram determinantes no processo de filmagem e no resultado nas telas. A câmera mais leve ligada a um equipamento de som sincronizado deu mais liberdade ao documentarista que se propunham a ser (no caso dos norte-americanos) uma “mosca na parede”: um observador privilegiado que registra o que acontece, mas interfere o mínimo possível no desenrolar dos fatos filmados.

Nas várias sequências de Sweet Toronto, há uma predominância da imagem vinculada à estética amadora. Enquadramentos que podem ser classificados como imprecisos ou desleixados são vistos ao longo do documentário. O rigor da imagem bem recortada e com uma câmera firme não era a prioridade dos documentaristas ligados ao Cinema Direto, que aceitavam sem maiores preocupações esse tipo de imagem tremida, tal como os documentários sobre a Segunda Guerra Mundial. Na montagem foi feita a opção de manter imagens que seriam consideradas imperícia do operador de câmera, ou ajustes de enquadramento que deveriam ficar fora do filme. Alguns dos planos que mostram o ajuste de foco, como o da guitarra de Chuck Berry durante o solo de Johnny B. Goode, remetem a psicodelia e resultam em um belo plano que dialoga com a estética vinculada a contracultura. Pennebaker utiliza os conceitos estabelecidos no Cinema Direto, sem deixar de lado a transgressão aos paradigmas, afinal viviam-se os anos 60, bicho.

Amante de rock’n’roll, cerveja e documentários que ninguém assiste, Thiago Barros é jornalista e pós-graduado em cinema.