Some Kind of Monster

Some Kind of Monster é o tipo de documentário que sofre uma reviravolta durante a filmagem e acaba contando uma história diferente do que era previsto. E isso é ótimo. Podemos lembrar o clássico Gimme Shelter de Albert Maysles, David Maysles e Charlotte Zwerin que documenta o festival de Altamont com os Rolling Stones como atração principal e que prometia ser um novo Woodstock. Porém transformou-se no fim do sonho hippie por conta da violência causada pela gangue de motoqueiros contratados para fazer a segurança do show, culminando com um assassinato registrado pelas câmeras. Outro exemplo é Homem Comum, de Carlos Nader que pretendia entrevistar caminhoneiros para filosofar sobre os absurdos da vida. O projeto foi deixado de lado até que o documentarista atendeu o chamado de um dos entrevistados para registrar um funeral, a partir de então o filme renasce com outro víeis. Mas falemos desses filmes outro dia, porque hoje é dia de Metal! \,,/

Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, lançado em 2004, Some Kind Of Monster surpreende pela forma como desnuda os bastidores da gravação do disco St. Anger, da banda Metallica. O filme propunha mostrar o processo de composição e gravação do oitavo disco de estúdio da banda de metal californiana. Vemos isso no documentário, entretanto esse é o pano de fundo, Some Kind Of Monster acerta ao mostrar uma das maiores de rock do planeta em crise, em vias de se desintegrar. A situação do Metallica naquele momento era desconfortável pra cacete. A banda era vista como a mais antipática do rock, por conta da batalha contra o Napster (programa de compartilhamento de arquivos que popularizou o download de mp3); o baixista Jason Newsted havia deixado a banda e pra completar o frontman, vocalista e guitarrista James Hetfield estava sofrendo por conta de abuso de álcool e “outros vícios”. Durante o doc descobriremos que a situação de Hetfield vai interferir no andamento das gravações: do disco e do filme.

Diante de toda essa turbulência a banda decide ir para terapia. Além do vocalista, Lars Ulrich, (baterista e co-fundador do Metallica, junto com Hetfield), Kirk Hammett (guitarrista) e Bob Rock (produtor e colaborador da banda de longa data) tentam se resolver nas sessões com o terapeuta. O documentário mostra a fragilidade, os ressentimentos e os conflitos das estrelas do rock ao mesmo tempo em que registra a gravação de St. Anger, e outras atividades como: encontro com os fãs, gravação de videoclipe e audições para escolha do novo baixista (Robert Trujillo). Os afazeres seguem até James Hetfield explodir e sair puto da vida, batendo a porta do estúdio após um debate sobre uma música que não estava funcionando, transformar-se uma discussão feia com Lars. James resolve ir pra rehab o que paralisa os trabalhos da banda. Nesse meio tempo a terapia continua com Lars, Kirk e Bob tentando entender onde estava o Metallica e qual seria o futuro do grupo. Um dos pontos altos do filme é uma das sessões que mostra Lars e Dave Mustaine (líder-fundador da banda Megadeth e ex-integrante da formação original do Metallica) verbalizando sobre o trauma que Mustaine ainda carrega após duas décadas de sua expulsão do Metallica.

Após quase um ano James Hetfield volta aos trabalhos junto com a banda e quando pensamos que “agora vai”, começam outros questionamentos e atritos. A dúvida sobre o futuro da banda ainda permanece, isso fica bem claro no tenso e cômico “monólogo do Fuck” protagonizado por Lars e dedicado a James. O desgaste da relação do batera e do guitarrista resulta em momentos de extrema tensão. Há também o debate dos caras do Metallica sobre a presença constante do terapeuta e quando será a hora de dispensá-lo. Outra questão que surge é se o próprio documentário deve continuar ou não. James demonstra que está meio agoniado com a presença invasiva das câmeras e microfones. A banda e os cineastas fazem uma reunião pra definir se a gravação do filme vai continuar, e decidem que o lance continua. Ainda bem, pois o resultado final do longa é um testemunho da intimidade de uma grande banda de rock como poucas vezes foi mostrada nas telas. Um dos melhores rockumentários dos últimos anos. Por isso os fãs de rock e os fãs do Metallica serão sempre gratos.

Amante de rock’n’roll, cerveja e documentários que ninguém assiste, Thiago Barros é jornalista e pós-graduado em cinema.